O que é a verdade e como alcançá-la? (homem-Deus parte 3)

Em continuação da conclusão de Agostinho, podemos entender que o critério de igualdade com as Ideias, atributo necessário para a "Visão da Verdade", é só digno às "almas santas e puras". De que modo esta purificação acontece? Pois ora, se algo pode ver a Verdade,logo é a verdade em si aquilo que o vê. Assim, uma alma "purificada" é aquela que está mais próxima da verdade, para que assim consiga concebê-la e vivê-la.

Mas o que é verdade e como alcançá-la? Deus é a única e somente verdade. Explico-lhes mais uma vez esta afirmação, desmiuçando-a para evitar imprecisões. "Deus" aqui no caso me refiro novamente ao ideal do homem-Deus. Mas com esta proposição estaria caindo talvez em um relativismo, uma vez que o ideal de cada homem dista um do outro; assim talvez a verdade cairia em um relativismo danoso. Entretanto, não é ainda aquilo que digo, pois ainda que cada homem tenha em si um ideal de Deus, e que este seja seu homem-Deus ideal, nutrindo sua boa vida, deve haver a Verdade Absoluta. Inalcançável aos homens e somente existente de forma Ideal. Logo, podemos concluir também que existe um homem-Deus ideal e absoluto.

Vejais ateus que por aqui não coloco uma crença minha como motriz de minha filosofia, mas sim uma condição metafísica necessária. Por exemplo: se questionarmos a qualquer homem qual o modelo de sociedade ideal, teremos qualquer resposta. Perguntando-lhe se é verdade que esta sociedade de sua resposta seja a ideal, teremos nada mais que uma estimativa de que talvez seja. A ausência da certeza sempre vai existir para o homem dada a sua limitação de inteligência e conhecimento. Logo, existe uma verdade que transcende a existência humana. Negá-la não é um ato de crendice, mas uma escolha talvez incoerente do ponto de vista metafísico. Existe um ideal de perfeição inalcançável do qual só podemos nos aproximar. Quando nos aproximamos deste ideal, afastando-nos da mentira, digo que estamos sendo purificados. Pois a verdade queima e nem todos estão preparados para recebê-la e vivê-la.

Viver na verdade é um sacrifício. Etimologicamente, sacrifício remete a um trabalho sagrado. É neste sentido sacro de algo perfeito e inalcançável que devemos viver. Por isso, não devemos questionar, por exemplo, o sofrimento que nos leva à verdade, mas sim aquele que dela nos afasta.

Concluir a verdade para um humano é apenas representar um ideal próximo da Verdade Absoluta, eterna e inquestionável. A boa verdade humana é aquela que persiste apesar das mazelas do tempo, do racional e do irracional. Assim, não chegamos à verdade através do irracionalismo animalesco (que só nos distancia do Ideal divino), nem em si do puro racionalismo (a razão pode nos levar a conclusões momentâneas equivocadas, completamente diluídas em outro momento da humanidade, por exemplo), mas sim através de uma conduta dotada de valores ideais.

Qual o parâmetro para que esses valores sejam definidos? Vários líderes espirituais o definiram através do tempo. Mas deveria haver algum mais ideal que outro? Ou todos esses valores convergem? E no caso de um ateu, novamente?

Se quem dota o homem de valores ideais é o próprio homem, então este é um ato falho, pois o homem é imperfeito. Assim, por mais perfeito que o homem possa ser, ainda distará da verdade. Entretanto, pode ser que o homem caminhe para a verdade por conta própria se tiver os mesmos valores da Verdade Absoluta. Este caminho, muito mais árduo, não questionarei. Mas seria talvez uma decisão mais inteligente confiar a alguém divino a escolha desses atributos. Pois se de fato divino o é, deverá formular ideais que quando sabatinados à razão ou ao tempo, resistem intrépidos, pois são Ideais de todos os tempos.

Continuarei amanhã deste tópico, sucitando algumas reflexões à respeito da Verdade dos Homens e a Verdade Ideal, ou Absoluta, e de como devemos proceder para alcançá-la em ambos os casos.

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