Conceitualização do homem-Deus (parte 2)

É impossível traçar o homem-Deus individual de cada ser na Terra, mas é possível estabelecer com que parâmetros a idealização pode estar acontecendo. Nem sempre ela vem através de um atributo almejado, o máximo refinamento de uma competência profissional. Ás vezes simplesmente o almejar a felicidade, naturalmente comum à todos os homens, é uma forma de ter em si o ideal de seu homem-Deus.

Todo homem são e dotado de boa espiritualidade naturalmente almeja, mesmo que inconsciente, algum atributo divino. Por exemplo, se o homem em si não pode tornar-se imortal, ele almeja dar a vida a outro ser humano (perpetuar a espécie), para fazer seu anseio renascer vivo em outra pessoa. Não estou dizendo com isso que ama seu homem-Deus acima de todas as coisas, pois isso não é necessariamente um processo consciente, mas que delimita suas ações. É uma visão idealizada que nutre o ínfimo de qualquer homem, e que quando mal-correspondida, sucinta a transformação desse ideal, e assim, aquilo que corresponde a ação do homem. Isto explica a essência desta filosofia apoteótica: tornar-se, de algum modo, dotado de um atributo divino, ainda que esta divindade seja um deus grego, egípcio, ou o Deus judaico-cristão. A este modelo podem ser feitas indagações que provavelmente vão espelhar a personalidade do indivíduo.

A sabedoria máxima e a felicidade máxima são atributos divinos. Daí seu homem-Deus. Este conceito, pois vejais, é um objetivo a ser atingido, ainda que inalcançável. Uma realidade apenas contemplativa e distante.

Pragmaticamente, a implicação deste conceito é a transfiguração do homem em Deus por um caminho de expiação. É sobretudo pelo caminho que esta transfiguração acontece que importa esta filosofia.

O homem regozija-se ao ver seu semelhante como mais próximo ao seu próprio ideal, e por isso louva suas qualidades. Assim acontece com o esportista, com o músico, com o homem rico. Pois têm, respectivamente, a perfeição da habilidade e a perspicácia invejável da inteligência (financeira, no caso). Observe que se o ideal obviamente não se reflete noutro ser humano, isto deixa de ser louvado. Assim, a riqueza, por exemplo, pode ser até visto como um atributo indigno, na medida do ideal.

Quando digo "expiação", acima, me refiro ao que leva este ideal de homem-Deus estar mais próximo de sua verdadeira perfeição. Esta ideal perfeição não pode ser encontrada pelo homem, pois como coloquei anteriormente, é algo inalcançável dado a sua imperfeição. Para construir um ideal possivelmente mais adequado de homem-Deus ele deverá olhar para aquilo que creia ser verdade. E esta só é encontrada quando ressoa em nosso interior de modo a preencher-nos com a resignação ante o divino. Daí a necessidade dos Textos Sagrados. No caso de um ateu, por exemplo, este percurso não é necessariamente pavimentado, mas encontra alicerce na representatividade de seus semelhantes. Assim, o ideal que buscam sofra talvez uma transferência de valor do divino para o representado pelo homem. Em qualquer um dos casos, o homem para aceitar essa perspectiva deve estar "purificado". Etimologicamente, podemos entender melhor essa questão:  puro, em latim purus, designa algo limpo como pelo fogo, próprio do derivativo do grego πυρ, pyr. Essa pureza advinda do fogo revela um ideal.

Para Santo Agostinho, "não é toda e qualquer alma que é apta, mas somente aquela que é santa e pura, ou seja, aquela que tem o olho santo, puro e sereno com o qual pretende ver as Ideias, de modo que seja semelhante às próprias ideais". Ou seja, a pureza da alma torna-se uma condição necessária para a visão da Verdade, bem como para a sua fruição.

Continuarei amanhã sobre como deveria decorrer este processo de expiação do homem em seu caminho para a purificação.

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